Diário da Taba
Reflexões de um escritor em uma sociedade ágrafa
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Se os escritores começarem a usar inteligência artificial a rodo em suas histórias, será impossível no futuro determinar quem detém o copyright das obras. O Estado então, por via direta ou por decisões judiciais, irá pô-las sob licença do tipo creative commons. Os autores terminarão diluídos em uma massa artística coletiva, extirpados de sua individualidade e, portanto, incapazes de oferecer resistência ao totalitarismo globalista.
Literatura e comunicação de massa
À Sangue-Frio (1966), de Truman Capote, combina a clareza e a simplicidade do jornalismo com a elegância e a profundidade da literatura. Narrados em tom noticioso, os fatos constroem um retrato social próximo ao de um romance de costumes. Em vez de lutar contra a comunicação de massa, o autor absorve-a e lhe dá feição literária.
Muitos de nós, escritores, também lutamos contra a comunicação de massa. Não deveríamos em vez disso tentar, como Capote, transformá-la em arte?
Dinheiro para quê?
Embora não tivesse vivido na pobreza, o escritor norte-americano Scott Fitzgerald nunca ficou rico. Ao morrer, seu único patrimônio, além de objetos pessoais, consistia na própria obra, então em baixa (só foi valorizada mesmo a partir da década de 1950). Suas cartas e os registros biográficos atestam a luta constante por dinheiro: sem reservas financeiras, dependia sempre do próximo conto em uma revista, do próximo contrato com um estúdio de cinema, do próximo adiantamento por um novo livro...
As dificuldades materiais não o impediram, porém, de se tornar um dos grandes escritores da literatura. A vocação genuína sempre encontra seu caminho.
Escritores-a-(nunca)vir
Rodinhas literárias são a quintessência do boring. Um bando de aspirantes a homens de letras, inspirados pelas panelinhas literárias do passado, reúnem-se, imbuídos de energia e entusiasmo, para fazer... nada. Porque a ideia é essa: uma desculpa mútua para a inércia: ninguém faz, logo ninguém fica para trás (nem para a frente, mas por que pensar nisso?) Para manter as aparências, os escritores-a-(nunca)vir discutem os autores chancelados pela universidade e pelos suplementos literários; mas ai de quem sair do senso comum ou, ousadia suprema!, mencionar autores fora do cânone cult. Como os personagens de Eça de Queiroz em Os Maias, essas figurinhas vivem com ideias grandiosas na cabeça (o grande romance do século XXI, o estudo definitivo sobre Borges, a poesia vanguardista que retomará a trilha aberta pelo concretismo...) — e no órgão craniano essas ambições permanecem, para todo o sempre, como minhocas que tivessem desaprendido o caminho para a superfície.
Universidade
Curvar-se à universidade é dar poder a uma instituição nominalmente comprometida com o conhecimento, mas que na prática só se preocupa com a própria perpetuação — obtida por meio de reserva de mercado, de títulos acadêmicos e de linhas de pesquisa que barram já na porta quem tenha visões diferentes do establishment.
Mentor e discípulo
Mário de Andrade, em seus últimos anos de vida, tornou-se mentor dos jovens escritores mineiros da Geração de 45. Um deles, no entanto, Fernando Sabino, não conseguiu suprimir uma inclinação estética pelo espiritualismo, e isso, no cenário literário de então, equivalia a integrar o campo da direita (com a esquerda filiando-se ao regionalismo.) A tensão entre os dois levaria a um rompimento, seguido de reconciliação; mas o incidente deixaria marcas na carreira literária de Sabino.
Mais sobre o assunto aqui.
Talento é superestimado
Jovem, eu achava que talento era o mais importante. Hoje, percebo que é o menos. A realização na vida passa por tomar as decisões corretas; tem mais a ver com sabedoria do que com habilidades acentuadas. E a decisão mais importante é, muitas vezes, a mais relegada: as pessoas de quem nos cercamos — e, dentre estas, aquela com quem escolhemos se casar.
O capote e os cisnes
Feud: Capote vs. the Swans, série de TV sobre a relação de amor-tornada-ódio de Truman Capote com suas musas (”cisnes”), é uma espionada fechadura na vida de uma elite que, se sempre teve aspectos condenáveis, ao menos tinha bom-gosto (diferente dos emergentes de hoje). O livro que deu origem à série (Capote’s Women, de Laurence Leamer) detalha as vidas de cada uma dos cisnes, entremeadas com a do próprio Capote. O tom geral é de fofoca da alta sociedade. O autor até tenta dar alguma profundidade ao universo retratado, mas não há muito a se explorar em um meio social de mulheres glamourosas que nunca deram um dia de trabalho na vida.
Deslize literário
Em Zélia, uma Paixão (1991), Fernando Sabino desliza ao se concentrar no lado humano da ex-ministra da Economia do governo Collor, Zélia Cardoso de Mello. Por ser uma biografia autorizada (ou seja, chapa branca), a mulher aparece como um anjo celestial, cujo único defeito era... amar demais. Nas partes estritamente jornalísticas, no entanto, o livro é um mergulho interessante nos bastidores do governo Collor.
Vocação literária
Ser um acadêmico, seja nas universidades, seja nas academias propriamente ditas (de Letras, Artes etc.), é o caminho mais seguro para soterrar uma vocação literária.
Editoras
Quem lamenta o fim da literatura pelas grandes editoras não percebe que o erro teve início ao se confiar a literatura às grandes editoras.
Fortaleza (CE), 01/06 – 01/08/2026




Achei interessante as suas reflexões. Escreva mais.
O que é "sociedade ágrafa"?
Li esses textos e gostei de todos.
O livro de Fernando Sabino sobre Zélia, comprei, li e gostei.
Li como um diário.
Eu só sou leitora.
O que leio, gosto ou não gosto sem fazer análises.
Tenho dificuldade com autores novos.
Principalmente os que querem usar negritude nas escritas.
Já sou assinante da Danúbio.
Liliane